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João Gordo enfrentou chuva e público esvaziado no Rock in Rio — e fez o show assim mesmo

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Domingo no Rock in Rio sempre reserva uma surpresa, mas essa tinha gosto de filme cult. O palco Supernova recebeu João Gordo, vocalista dos Ratos de Porão, num show que encontrou chuva forte e um público esvaziado — cerca de 200 pessoas entre a lama e a garoa. Quantidade, porém, nunca foi documento no mundo do hardcore.

João Gordo integra os Ratos de Porão desde a década de 1980, quando o movimento punk de São Paulo tomava forma. A banda, formada em novembro de 1981, surgiu em plena explosão desse movimento e foi construindo, ao longo de décadas, uma discografia de letras diretas, críticas sociais afiadas e uma sonoridade que não pede licença a ninguém. Não é exagero dizer que os Ratos de Porão ajudaram a definir o que é punk e hardcore no Brasil — e João Gordo é a voz que carrega tudo isso.

No meio do dilúvio carioca, ele apostou numa pegada mais dançante, mandando ver em faixas de Hot Freaks — incluindo "I Wanna Be Your Boyfriend" — e na "Juventude Perdida", canção de sua própria autoria. O setlist correu sem pausas: uma música emendava na outra, num fluxo contínuo que exige atenção e memória. É aí que entra o detalhe mais curioso da noite: para garantir as letras na ponta da língua durante uma sequência tão intensa e sem intervalos, João Gordo recorreu a um teleprompter. Até os punks mais veteranos merecem apoio tecnológico — e ninguém pode reclamar de quem leva o show a sério o suficiente para não errar uma palavra. A banda Asteroides Trio completou o time no palco e garantiu que a sonzeira não dependesse só da coragem de quem encarou a chuva do lado de fora.

O contexto ajuda a entender o vazio na plateia. Aquele domingo no festival estava recheado de artistas de R&B e pop, uma programação que naturalmente puxava o grosso do público para outro lado do evento. Não é que João Gordo tenha perdido a majestade — é que o festival estava sintonizado em outra frequência naquele dia. Quem ficou, ficou animado. E provavelmente saiu satisfeito, molhado e convicto de que fez a escolha certa enquanto todo mundo disputava espaço em outro palco.

Isso diz algo sobre o tipo de fã que os Ratos de Porão cultivaram ao longo de mais de quatro décadas. Não é um público que aparece porque o algoritmo recomendou. É gente que vai com intenção, que conhece as letras, que aguenta chuva. Duzentas pessoas assim podem fazer mais barulho — e mais sentido — do que dez mil indiferentes.

Ver João Gordo ali, firme debaixo da chuva, teleprompter na frente e Asteroides Trio ao lado, é a prova de que a chama do punk brasileiro continua acesa. O resto do festival podia estar dançando outra música. Ele estava lá do mesmo jeito.

Com informações de fontes públicas, Wikipédia, YouTube, Instagram e TikTok.