Poppy trouxe o contraste, a galera trouxe a 'remada viking' no Rock in Rio

Há uma pergunta que qualquer pessoa que não conhece Poppy faz quando ela sobe ao palco: o que é isso? E a resposta, descoberta aos poucos e com certa dose de susto, é que isso é exatamente o ponto.
No Palco Sunset deste sábado (5), no Rock in Rio 2026, ela chegou vestida com um look em tons de verde e azul — que, sim, remetia vagamente às produções teatrais de divas do pop — cabelo longo preto e pedestal brilhante. Começou cantando delicadamente a faixa "Have You Had Enough", voz leve, postura de quem veio fazer um recital. Para qualquer desavisado que tivesse chegado ao Sunset sem saber o que esperar, parecia uma artista pop encaixada no dia errado.
Aí veio a segunda música. E o gutural.
A banda, mascarada com figurinos que têm mais de pesadelo do que de show de arena, entrou com solos acelerados e deixou claro que a noite seria bem outra coisa. Esse é o trunfo de Poppy: o contraste não é um recurso, é a essência. Ela transita do "fofo kawaii" ao metal pesado com uma naturalidade que desconcerta — e é exatamente aí que mora o charme.
A trajetória dela ajuda a entender de onde vem essa dualidade. No início dos anos 2010, Poppy ganhou notoriedade na internet com vídeos enigmáticos em que interpretava uma espécie de boneca androide: fofa e aterrorizante ao mesmo tempo, convidativa e completamente perturbadora. Em 2016, se lançou como cantora pop, com sonoridade eletrônica e dançante — fase que agradou, mas que não era onde ela se encaixava de verdade. O metal chegou depois, e foi ali que ela encontrou o terreno fértil para brincar com os contrastes que sempre definiram sua persona. Hoje prefere se apresentar como artista eclética, e no Sunset deu pra acreditar nisso sem muito esforço.
Nos primeiros momentos do show, a fórmula funcionou bem. As chamas e a fumaça no palco ajudaram a criar atmosfera, e a galera embarcou nos sustos com disposição. O problema surgiu quando ficou claro que o roteiro era um só, repetido várias vezes: começa devagar, a percussão aperta, o metal explode, volta ao suave, reinicia. A oscilação constante, que no início surpreendia, foi esfriando a energia ao longo da noite. Em algum momento, o público queria que a coisa simplesmente embalasse — e ela demorou a deixar.
Poppy também não foi das mais comunicativas. Pediu umas rodinhas aqui e ali, seguiu o setlist sem muita pausa para respiro ou troca com o público. Nem mencionou que "V.A.N", uma das faixas que mais engajou a galera na noite, é uma parceria com o Bad Omens — que tocaria mais tarde no mesmo festival. Uma deixa e tanto que ficou no bolso.
Mas a falta de papo não travou a criatividade de quem estava na frente do palco. Além das rodinhas punk e dos sinalizadores coloridos — elementos clássicos do repertório do público de shows de metal —, rolou o momento mais inexplicável e, convenhamos, mais divertido da noite: uma parte da galera simplesmente sentou no chão enlameado e começou a remar em sincronia, como se fosse torcida de seleção europeia de futebol. A cena foi tão aleatória quanto parece. Poppy não tem qualquer relação conhecida com a Noruega nem com nenhum esporte coletivo escandinavo — os fãs provavelmente teriam remado para qualquer artista que subisse naquele palco naquele momento. O barro estava ali. A vontade também.
O show só engatou de vez no trecho final, quando, antes de encerrar com "New Way Out", Poppy pediu a maior rodinha de todas. Deu certo. Deu mais do que certo. E ficou a pulga atrás da orelha: se ela tivesse pedido mais desde o começo, tivesse se aberto mais com o público ao longo do set, o resultado poderia ter sido outro show inteiramente.
No balanço da noite, não foi o melhor do dia — o Sepultura já havia botado fogo na multidão antes dela — e nem chegou ao fundo do poço, posto que o MGK havia disputado de forma mais do que competente. Poppy provavelmente converteu alguns fãs novos, preencheu bem o horário e entregou um espetáculo que, nos seus melhores momentos, lembrou por que ela é uma das artistas mais originais desse cruzamento maluco entre pop e metal. Mas sobrou espaço. Bastante espaço.
E você, teria remado no barro?
