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Romero Ferro lança 'Ouro' e prova que brilho próprio é mais poderoso que qualquer culpa

Dez anos. Três discos. Uma trilogia que começou com 'Arsênico' (2016), passou por 'Ferro' (2019) e chega agora ao seu fecho dourado. Romero Ferro, cantor e compositor nascido em Garanhuns, no coração do agreste pernambucano, lança 'Ouro' — e o álbum já avisa na capa: esse ouro está enterrado nas raízes.

Com raízes filtradas por antenas bem calibradas para o som contemporâneo, 'Ouro' reveste beats em cima de brega, brega-funk, coco, maracatu, forró, baião e rock. É muito bioma sonoro numa tacada só, e funciona bem na maior parte do tempo.

A faixa 'Meio do caminho' traça a rota biográfica do menino do mato que cresceu ouvindo Dominguinhos — evocado com um sample intencionalmente distorcido de uma gravação de 1985 — e que, no meio do percurso, beijou outro menino e encontrou a própria turma. O álbum parte da música-título, gravada com o grupo Coco Raízes de Arcoverde, e ganha corpo nos feats: o batidão de Àttooxxá encorpa 'ExFinge', e Luiz Lins se afina com Romero na sofrência certeira de 'Covardia'.

Na seara romântica, 'Da eternidade ao fim' versa sobre um amor em paz com jeito de tema de filme-clichê da Sessão da Tarde — e a letra entrega exatamente isso, sem vergonha. Já 'Safofo' joga pimenta no amor com som de bar e clube nordestino, onde brega, brega-funk e piseiro convivem em santa harmonia. A pimenta arde mais em 'Amor proibido', de alto teor erótico, e o prazer carnal volta como mote em 'Racional (Tu tu)', de pegada popular.

Nem tudo reluz, porém. Trazer Cazuza para o universo do piseiro resultou na diluição da contundência da letra de 'O tempo não para' (1988) — e é aqui que 'Ouro' perde alguns quilates. A canção sobrevive, mas o veneno do original escapa.

Entre joias e bijuterias — e o repertório autoral oscila entre as duas categorias —, Romero ainda divide o canto com a conterrânea Ylana em 'O preço que a alma aguenta', sobre resiliência diante das perdas, e celebra a existência com 'Mistério da mistura', convite efusivo à festa da vida vivida na rua.

O fecho é o ponto alto: 'Deus me livre desse céu', com Catto, rejeita a culpa religiosa imposta a meninos do mato e da cidade que, em algum ponto do caminho, colocam fé no próprio amor e desejo. É quando 'Ouro' mais brilha — e faz jus ao nome.

Com informações de fontes públicas, Wikipédia, YouTube, Instagram e TikTok.