Sandra Sá prova que lenda não tira férias e desembarca no rap com 'Indo pra dentro'

Tem gente que completa 71 anos e ganha um jantar em família. Sandra Sá lança um EP. Respeito.
'Indo pra dentro' reúne sete faixas — três inéditas e quatro regravações — e marca a chegada da cantora carioca a um território que ela ainda não havia explorado de forma tão direta: o rap. A conexão acontece principalmente pela rapper fluminense King Saints, que aparece em duas faixas e entrega versos que ficam.
A abertura do EP ressuscita 'Koo lei lei', composição de Sandra com Kevin Mulligan que estava no álbum de 1996 'A lua sabe quem eu sou' — disco que ficou à sombra dos hits daquele ano. Três décadas depois, a faixa ganha pegada afro renovada, com a participação de Marissol Mwaba e de King Saints, que rima: 'Não ando só / No meu sangue, carrego laços que dão os nós'. Bom começo.
O single que promove o EP, 'Sou tão feliz', mistura soul, rock e rap numa vibe positivista que resume bem o espírito do projeto: chamado de união, alto astral e nenhuma desculpa pra ficar parado. A inédita 'Na pausa do compasso', parceria com o guitarrista Davi Moraes, Noé Ribeiro e Simone Malafaia, é a faixa mais animada do lote — batida funkeada à moda Black Rio com beats contemporâneos, e um 'Observa, absorva' que funciona como conselho e como convite para mexer o corpo.
Nas regravações, 'Dançando com a vida' — do álbum 'Momentos que marcam demais', de 2000 — ganha toque de samba e versos falados, enquanto 'Tem que acreditar' e 'Movimento (Bagulho doido)' reforçam o traço motivacional que Sandra faz questão de sublinhar no repertório.
O EP não é isento de ressalvas: a safra autoral é de qualidade moderada e o teor de novidade não exatamente impressiona. Mas 'Indo pra dentro' cumpre o que promete — traz a primeira-dama do funk-soul de volta ao baile, sem abrir mão das raízes e com o rap como nova ferramenta, não como fantasia. Para quem não lembra: desde 2021 ela voltou a assinar Sandra Sá, sem o 'de' que havia incorporado ao nome artístico em 1988. A senhora sabe quem é. E lembra a gente também.
